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18 dezembro, 2014

Frase da Semana

"Queria que Deus estivesse vivo pra ver isso!"
- Homer Simpsons

07 dezembro, 2014

Pense


Nosso fim é possuir a força. A palavra direito é uma ideia abstrata que nada significa. Significa simplesmente isso: "Dai-me o que eu quero, afim de que eu possa provar que sou mais forte que vós".

- Os Protocolos dos Sábios de Sião

21 novembro, 2014

Perguntas

- Quando foi a última vez em que você aprendeu algo novo? - perguntou Anabela à tia.
- Todo dia eu aprendo algo, Ana. Um prato novo na revista de receitas, uma notícia no jornal, uma fofoca da vizinha. Por que?
- Não, tia! Algo novo, novo. Uma coisa nova... Quando foi a última vez em que você jogou fora alguma coisa velha de você mesma e trocou por algo novo?
- Ah, esse tipo de coisa... Não sei. Não faço ideia. E não me pergunte esse tipo de coisa, faz com que eu me sinta burra - enrispideceu a tia.
- Mas isso é ruim? Sentir-se burra... Achei que isso fazia ficar incomodada com as coisas e jogar as certezas fora. Aprender coisas novas, tia. Saber que a senhora é burra vai te ajudar a ficar mais inteligente.
- Fique quieta, Ana! Ou eu mesmo te dou umas cintadas! Isso é modo de falar com alguém mais velho?

Anabela recuou. Os olhos arregalados. A boca trêmula. Não queria apanhar e não entendia o porquê de tamanha aversão às suas perguntas. Aprender era algo bom, ninguém seria burro se largasse a burrice pra trás e abraçasse novas ideias.
Naquele momento Ana aprendera.
Deixou para trás a ingenuidade das perguntas curiosas e as substituiu pela necessidade da dissimulação velada. Entendeu que não eram as suas perguntas que machucavam as pessoas, mas sim as respostas delas mesmas que as feriam.
E então, ficou em silêncio.
- Anabela e o Mundo

11 outubro, 2014

Frase da Semana

"Não importa o quão divertida ou inocente seja a brincadeira. Alguém sempre vai levar a sério o que não deveria."
- Anônimo

07 outubro, 2014

MEUS VINTE CENTAVOS SOBRE AS ELEIÇÕES

"Discute-se a democracia com o mesmo temor velado com o qual falava-se de religião."

A democracia no Brasil ainda não deu certo.

O que mais me fascina no processo eleitoral brasileiro é o fato de que os eleitores militam na internet, em ambos os extremos do picadeiro político, alegando motivos para não votar nos candidatos opositores aos seus. Sem darem-se conta de que isso jamais vai influenciar alguém com uma posição pré-formulada e contrária a mudar de opinião.

Chovem ofensas à PTralhas e tucanos, à coxinhas e analfabetos, à maconheiros e gayzistas, à crentes e neoliberais, à comunas e burgueses, sem efeito prático absolutamente nenhum. Exceto, talvez, o de empestear as redes sociais com uma espécie de ufanismo e ativismo tão vazio, que após algumas semanas evapora e volta a chover sob a forma de resultados do brasileirão, comentários sobre novela, vídeos de gatinhos e outras manifestações politizadas.

O que muitos não entendem, é que xingar o candidato da oposição e listar uma centena de motivos para não votar nele não vai mudar em NADA as opiniões das pessoas que leem estes textos, não importa o quão convincentes e/ou factíveis eles são. E isso se dá por 4 motivos muito peculiares:

1- O TÍPICO "FACEBOOKER" NÃO SABE O QUE FALA

Sim, por mais duro que seja constatar isso (e fazer parte disso, na grande maioria das vezes), a verdade é que os usuários ativos de redes sociais muitas vezes possuem um nível de instrução incompatível com a visão que possuem de si mesmos. Isso não quer dizer que sejam sempre ignorantes ou pouco instruídos, mas sim que, em sua maioria, flutuam sobre uma margem extremamente rasa de informações às quais se apegam para construir seu repertório político.

Vejo diariamente dezenas de pessoas em meu mural compartilhando vídeos, listas, infográficos e reportagens cujas fontes muitas vezes não possuem o mínimo de credibilidade (reflexo direto da banalização da autoridade informativa e, a grosso modo, da deterioração da qualidade jornalística do país). E, posteriormente, pautando seus argumentos com base nas "verdades" seletas que lhes são convenientes, sem pesar a qualidade da informação.

O típico usuário de mídia social é um intelectual fajuto, que nunca leu nada de fora de sua alçada profissional, mas após 3 ou 4 artigos de blogs (de blogueiros tão rasos quanto) age como entendido de assuntos polêmicos e complexos. E, para piorar, faz questão de perpetuar tal postura ao compartilhar suas opiniões fundamentadas em pseudo-ciências.

(Algo que, inconvenientemente, pode servir como uma carapuça para minha própria pessoa ao escrever sobre todos estes tópicos. Mesmo com todos os meus esforços pessoais de me informar antes de redigi-los e de tentar manter a coerência deles).

2- O BRASILEIRO NÃO SABE VOTAR

Quando foi a última vez em que você leu com detalhes todas as propostas de leis ou planos de governo dos candidatos em quem votou? E quando foi que procurou se informar sobre os crimes, condenações e acusações deles? E sobre suas obras e benfeitorias?

Podemos ir mais além, e é aí que entra o ponto crucial de um sistema democrático de eleição de representantes: quando foi a última vez em que você comparou as propostas, acusações e benfeitorias de outros candidatos em relação ao seu preferido? Quando, de fato, pesou as opções que tem disponível, sem pautar-se no favoritismo passional por partidos e/ou figuras carismáticas que aparecem na televisão?

Defender e votar às cegas em alguém que você elegeu como preferido é muito fácil. Mas sair da zona de conforto de apoiar uma legenda partidária apenas por simpatia, ao deparar-se com os podres inerentes à ela, é dar sentido ao verdadeiro poder da democracia. Votar consciente é saber em quem e no que se está votando, e também o porquê de estar votando naquela opção.

Se você é incapaz de criticar seu próprio partido/candidato preferido e/ou até mesmo mudar de opção devido a uma análise racional de panorama político, então você está votando errado. O voto não deve ser apenas uma manifestação sentimental de preferências idealistas, ele deve ser uma ferramenta cívica de promoção de mudanças racionais. Ele tem que ser útil e prático, ou jamais terá clareza.

Não se deve votar no candidato que você mais gosta. Mas sim naquele que faz mais sentido. E para isso é preciso analisar friamente cada uma das opções, compará-las e, se necessário, mudar de opinião.

3- OS ARGUMENTOS POLÍTICOS SÃO INEFICIENTES

Um dos contrapontos mais delicados dentro da discussão política num meio democrático impessoal, como a internet, é a prevalência da retórica em detrimento da dialética. Tenta-se convencer e subjugar ao invés de somar conhecimentos e discorrer sobre um assunto.

A grande maioria dos militantes de Facebook, com suas ações absolutamente ineficientes (torno a reafirmar), limita-se a espernear em seu próprio mural berrando suas intenções de votos abertamente e ofendendo os candidatos concorrentes.

Ora, basta pensar (e eu digo "pensar" no sentido mais puro da palavra) um pouco para perceber que o único resultado prático disso é incomodar outras pessoas, mesmo as que possuem o mesmo ideal político.

Como apontado anteriormente, o brasileiro vota com o coração (ou muitas vezes com o reto) e não com o cérebro. E isso faz dele um apaixonado por seus candidatos, por suas causas, pelas cores do partido, pelo jingle da campanha... Por tudo o que não importa em definitivo. E vocês sabem o que dizem sobre falar mal das paixões alheias...

Esta é a retórica vazia das mídias sociais. Não há vencedor pelo simples fato de que não há o que vencer. Só há gritaria. Nenhum ser humano dotado de plenas faculdades mentais mudaria suas opiniões, tão bem formuladas com informações de blogs vagabundos, simplesmente porque alguém vomitou argumentos contrários à elas em sua cara. Ainda mais se este for um apaixonado por tais opiniões, sem nem entender o que elas significam.

O ideal seria que houvesse uma soma. Um diálogo, como o próprio termo diz. Onde cada indivíduo tivesse a abertura intelectual para ouvir os argumentos opostos à realidade em que acredita e pudesse assimilar de modo eficaz tais dados. Com a finalidade de poder conjecturar uma mudança racional de opinião ou não.

Então, lamento lhes dizer, mas infelizmente aqueles 2546 motivos para não votar em Fulano não funcionam para influenciar o voto de ninguém. E não adianta nada depois dizer coisas como "Não acredito como alguém esclarecido é capaz de votar em Beltrano", pois, na cabeça dos demais, eles pensam exatamente a mesma coisa que você.

Olha só quanta gente esclarecida...

4- AS ELEIÇÕES NO PAÍS SÃO OBRIGATÓRIAS

Por fim, chegamos ao motivo final (mas não menos importante): todos nós só fazemos esse papel patético porque, a grosso modo, somos obrigados a fazê-lo.

Não, não estou tentando eximir ninguém da culpa de ser ignorante, ou de se apaixonar pelo candidato/partido, ou pela falta de cultura e educação do sistema básico de ensino do país. Só estou dizendo que a obrigatoriedade do voto é um problema e tanto. E é fácil entender os motivos.

Você é obrigado, de 2 em 2 anos, a sair de sua casa em um domingo de manhã para ir até um colégio eleitoral, entupido de outras pessoas com a mesma disposição enfadonha que você, para esperar por horas em pé em uma fila e finalmente poder digitar algumas sequências de números em uma caixinha de música que mais parece um telefone com tela rodando MS DOS. O telefone faz barulhinho, você fica satisfeito, a tela indica FIM e você volta para casa. Vai passar o resto do dia berrando no Facebook e torcendo com a televisão ligada para que seu candidato do coração ganhe no primeiro turno. Se ele ganhar você pode ir para a avenida principal de sua cidade, ficar mais duas horas preso no trânsito, ouvindo o mesmo jingle que ouviu a campanha inteira, e buzinas... muitas buzinas.

Que lindo imbecil você é. Você jogou um dia de folga previsto por lei para executar um dever cívico (que deveria ser um direito), apertando botões em uma caixinha 100% passível de fraude, para fazer um favor à um estranho que nunca verá pessoalmente na vida, para que ele ganhe R$ 78.000,00 mensais (verba de gabinete de um deputado federal) e compareça no trabalho apenas algumas míseras vezes por semana. Ah, e para que ele se limite a assistir outras pessoas a discutir assuntos que não dizem o menor respeito à você.

Em suma, o candidato que você foi obrigado a eleger não te representa. Ele nem sequer sabe que você existe e você provavelmente não leu nada do que ele propôs em seu plano de candidatura. Além do que, dificilmente ele irá cumprir o que prometeu. Então por que você teve que ir lá, naquele maldito domingo, fazer o favor de dar todas essas regalias pra ele?

Se o voto não fosse obrigatório, palhaço, ex-BBB ou jogador de futebol nenhum teria o poder de tirar você de sua casa para votar, se não o quisesse. Você provavelmente só sairia de casa por um bom motivo. Só pegaria filas em um domingo de manhã por uma esperança racional de mudanças para melhor, por uma defesa coerente dos interesses que te representam.

Mas você não tem escolha, tem? Vivemos no Brasil e você tem orgulho de ser brasileiro.

Vai ser obrigado a escolher e votar em um candidato do coração. Vai se informar sobre os podres dos concorrentes no Twitter e nos blogs. Vai falar mal de PTralhas e tucanos nas redes sociais, sem convencer ninguém, sem sequer ser ouvido.

E assim as coisas continuarão sem dar certo. Por mais 2, 4, 6 e 50 anos.

Viva a democracia!

02 outubro, 2014

Antagonismo

"Quando finalmente morre a esperança, prevalece a humanidade."
- Kalahedaran: A Cidade dos Condenados

27 agosto, 2014

Encontros

A primeira vez em que a vi foi em um sonho de anos atrás. Muito, muito antes do nosso terceiro e derradeiro encontro, pessoalmente. E por mais que minha memória embace os detalhes de seus traços, eu sei que era ela.

No primeiro sonho ela vinha até mim, como se me conhecesse de muito tempo. Estávamos os dois em um ônibus, sentados lado a lado - ou em pé, próximos... não importa - e foi ela quem falou comigo. Disse trivialidades, sorriu e riu. Me inundou com o sol em seus cabelos e afogou com o azul cristalinos dos olhos. E me marcou pra sempre com o único elemento nítido do sonho de quase 4 anos atrás:
"Até que enfim você me achou! Faz tempo, heim?"

O resto do sonho não importa agora e creio que não importava na época. Ela surgiu e disse ao que veio. Me marcou. Mostrou que existia. Minha dama onírica.

Dois anos depois ela apareceu outra vez. Estávamos em um casamento, novamente em um sonho. Vestida de branco, ela reforçava ainda mais a luminosidade da pele e da face. Mas para o meu absoluto alívio, não era ela a noiva. Embora estivesse acompanhada.
"Oi. Lembra de mim? Do ônibus!"

Sim, eu lembrava. Claro que lembrava. Nunca lembrei com tamanha nitidez do perfume de alguém que nunca habitou meu mundo desperto. Meu delírio íntimo e utópico. De seios fartos e ombros perfeitos.
"Pois é... Estou namorando. Você tá sempre com alguém, então não pude esperar... Mas quem sabe um dia..."

Eu não a pude odiar mesmo após ouvir isso. Ela estava certa, eu sempre tive alguém. Meu anjo de duas asas direitas, de pele cinza e olhar triste. A pessoa que eu precisava libertar e que sofrera por minha causa sem que eu jamais entendesse o início de tudo. O amor que não era paixão, mas sim um misto incompreensível de zelo, compaixão e sofrimento. Não era a hora.

E o sonho rodopiou e esticou e sumiu. E as lembranças ficaram.

Depois vieram outros anos. Pesadelos com conflitos, perdas e becos sem saída. Certezas de adulto e medos de menino. A minha inalcançável Esquina e seu poste unificador de mundos. Os males do dinheiro e a sede por luxúria. O temor de estar sempre errado e o silêncio derradeiro da voz interior, como se Deus tivesse ficado quieto.

Vieram coisas, sim. E dentre elas os riscos tomados voluntariamente. Alguns pensados, outros totalmente impulsivos. Formas de encontrar a mim mesmo. O Solar. Meu labirinto pessoal e fonte de luz incomparável. Signo.

E, quando tudo parecia apenas uma memória pálida, forçosa apenas nas raríssimas perguntas sobre os sonhos mais estranhos que já tive, ela ressurgiu. Definitiva - assim espero - e encarnada.

Fui eu quem a abordei dessa vez. Digitalmente. Eu quem cheguei e provoquei, como um louco com falas ensaiadas de um monólogo que nunca funcionaria à dois. Mas a peça foi perfeita. E embora ela não tenha me reconhecido, eu a vi como ela era.

Seu cabelo, naturalmente dourado, estava rubro. Os olhos mantiveram-se fiéis, tal qual o aroma. A idade mais tenra - algo inesperado, mas intrigante. A voz e a fisionomia, que outrora foram fantasmais e indefinidas, me pareceram familiar. E isso bastava. Este novo sol não era perfeito e nem simétrico, mas ainda assim brilhante o bastante para ofuscar e esquentar todas as imperfeições desnecessárias. Ela era o meu Solar. A luz, a casa, o agir sozinho acompanhado.

E nesta terceira vez nós saímos juntos no mundo real. Senti seu beijo, inventei motivos desnecessários para me recostar nela e tocar sua mão. E eu a vi por inteiro pela primeira vez, morrendo de medo de ser apenas um sonho.
"Você não é real..."

E talvez ela não seja. E talvez eu sofra como um desgraçado por encarar o sol onírico pessoalmente na vida desperta.

Mas desta vez eu não ligo. Dormindo ou acordado, esta não é uma época de noite e de pesadelos.

Espero que este dia brilhe como um solstício de verão.

11 agosto, 2014

Mimese

Havia, naquela cidade chamada Londrina, um autor que nunca terminava nada do que

08 agosto, 2014

Techo Solto

"E na terceira noite de solidão, alçou voou pela noite cinza. Vislumbrando tocar estrelas e desfazer-se de memórias mofadas. Tão insólito e fascinante quanto um zeppelin de Lázaro."

14 julho, 2014

Frase da Semana


"Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu."

- Pedaço de Mim, Chico Buaque de Holanda

26 junho, 2014

Nossa História

"Poderíamos juntar nossas palavras e formar uma poesia. Eu, metáforas; você, rimas.
E mesmo que soasse uma tragédia, seria uma história digna de ser contada.
Sem direito a um ponto final."

- MBBF, 26/06/2014

15 junho, 2014

Augúrio

As vozes vieram falar comigo hoje, apos anos de silencio. Falaram de morte, perda e sofrimento. Creio que devo me preparar para algo ruim.

06 junho, 2014

Frase da Semana

"A bem verdade é que neste mundo de aparências, tornou-se bela a exposição implícita da solidão e da carência, mas proibida a transparência do sentir."

04 junho, 2014

E se...

...A humanidade é uma raça alienígena que invadiu a Terra há centenas de milhares de anos, exterminou todos os habitantes originais e colonizou o planeta, para depois esquecer de seu passado por conta de um desastre natural?

...Você é a única forma de vida existente no universo e toda a criação não passa de uma ilusão criada por você mesmo, para não acabar enlouquecendo em solidão? E todas as outras pessoas só existem como artifícios da sua mente para interagir com você e manter a impressão de que você não está sozinho?

...As pessoas re-encarnam em outras épocas, anacronicamente, apenas pra vivenciar aquilo que precisam vivenciar. E não existe presente, passado ou futuro?

...O único espírito ou alma existente no mundo é a sua, e todos os demais seres vivos do planeta é você mesmo, encarnado em diversas versões de tempo, forma e propósito?

...Todas as células do seu corpo são seres conscientes em uma escala microscópica, e o seu ego e tudo o que você interpreta como identidade própria não passe de uma interface artificial criada por elas para interagir com o mundo e tentarem sobreviver? Você seria apenas um robô biológico artificialmente inteligente que acha que tem livre arbítrio.

...Deus morreu ou foi embora depois do 7º dia?

...Os intervalos entre os minutos nunca passarem de fato e cada versão sua de um milésimo de segundo atrás estiverem agonizando, presas na eternidade congelada do passado para sempre?

...As cidades forem seres vivos que se alimentam da energia psíquica, medos, anseios e temores dos seres humanos?

...Neste exato momento, há uma inteligência artificial global interpretando e aprendendo com tudo o que você faz pelo computador?

...O seu reflexo for um ser vivo de outra dimensão que, por singularidades do multiverso, age sincronicamente com você todas as vezes em que se vê refletido?

...Todas as decisões que você toma e ações que você faz criam trilhas paralelas de tempo, e a sua consciência atual nada mais é do que uma versão do seu anterior que seguiu por esse caminho do presente? O seu Eu de um dia atrás pode estar morto nesse exato momento.

...O amor da sua vida foi alguém que você dispensou no passado e agora você espera por esse alguém sem saber que já perdeu essa chance?

...A entropia, a dor, o sofrimento e a indiferença são a forma e os elementos naturais que compõem o mundo? E ao lutar por e buscar o bem, o conforto e as virtudes estamos contrariando o universo e sua natureza?

...Os seres humanos são anjos caídos em estado de castigo ou demônios arrependidos tentando voltar para o paraíso?

...Existem duas ou mais almas coexistindo no seu corpo, mas como você nasceu assim, nenhuma delas percebe a própria individualidade e por isso se interpretam mutuamente como facetas de consciência de um mesmo indivíduo?

...Não existe absolutamente nada além daquilo que conhecemos, e cada estrela, fenômeno natural, lei da física ou conhecimento só passa a existir a partir do momento em que tomamos conhecimento dele ou quando nos indagamos/cogitamos a respeito?

...Você vive de trás pra frente e tudo o que você fez hoje nada mais é do que vivenciar a história do mundo ao contrário?

...Você não tivesse perdido todo esse tempo lendo esse post e ao invés disso estivesse estudando, praticando um exercício ou trabalhando?

(Eu poderia chamar esse post como Heresias. Seria até mais apropriado...)

26 maio, 2014

Crônica - Nebular

Olhei pro céu hoje e vi um tapete frio, nebuloso e escurecido me separando da velha sensação familiar que tive em minha primeira epifania verdadeira.

Onde outrora havia um telhado azul, com um sol de bilhões de anos iluminando o mundo, naquele momento reverberava a melancolia de sentir-se desconectado.

Embora fosse sabido que logo ali, há milhares de milhares de medidas imensuráveis de distância fulguravam estrelas, que mesmo há um infinito de lonjura faziam parte de mim, o teto branco impenetrável e austero fez-me sentir solitário.

Melancólico, procurei sentido e lição no que o céu poderia me ensinar. E tive, não com a mesma intensidade, deslumbramento ou majestade quanto a primeira, uma nova epifania.

Existem coisas nos separando. Existem, de fato, dias frios e nuvens densas. Existem momentos em que o onipresente azul celeste e o infindável negrume espacial estão além de nossos sentidos e de nossos pequenos "eus" de dimensões pequenas. Somos, ainda que entidades cósmicas, minúsculos componentes autômatos e individuais. Pedacinhos significantes buscando o próprio significado.

Este outro lado, curiosamente, não me trouxe o mesmo assombro que tive com a primeira epifania. Creio que antes de compreender o que realmente somos como todo, existe em nosso íntimo uma noção parca do que somos como parte.

Meros espectadores do infinito.

Esquina

Me desligando da Esquina dos Mundos...

Matei não um, mas vários sonhos.


25 maio, 2014

Ela

"A falta que ela me faz as vezes me sufoca, sabe? Sei que fui eu quem terminou tudo. Eu quem me afastei de propósito - ainda que relutantemente. Eu que destrocei os sonhos. Mas mesmo assim faz falta.

Não sei explicar. Achei que fosse apenas carência, apenas tesão ou só falta de companhia e cumplicidade. Mas isso vem dela, entende? É falta dela, saudades dela, do cheiro, da voz, da pele. Seus seios, seus cabelos, seu suor, seu ventre. Especificamente ela. Nada genérico.

As vezes, por impulso mesmo, eu quase ligo ou mando mensagem. Daí penso no quanto já fiz isso, e no quanto me arrependi depois. Por vários motivos: achar que estou prorrogando o improrrogável, achar que tudo isso já está morto e enterrado, achar que não há mais volta e que o certo é seguir adiante.

No fundo não vai adiantar nada. Desculpas não vão consertar as coisas. Minha saudade não vai me fazer perdoar-me pelo que passou. E as feridas que deixei, até mesmo na família dela, foram fundas além da conta. E bom, eu me desapego mais fácil. Sempre. Tenho esses momentos, mas consigo superar depois.

Se eu compartilhar isso com ela, tudo fica diferente. Nossos materiais são outros. Ela é absolutamente pura e frágil, o cristal mais transparente e delicado que já conheci na vida. E cristais devem ser guardados, mesmo que de nós mesmos. Enquanto eu sou um bloco de metal mal trabalhado, magnetizado e atraído para todas as direções possíveis, impossível de se encaixar e simetrizar harmonicamente com nada. Não fomos feitos um para o outro. Já compreendi isso, ela não.

Só queria poder dar um 'oi' de vez em quando, sabe? Dizer que lembrei do sorriso ou da voz. Ou de algo que ela gosta e que vai ser um de seus símbolos pra mim pelo resto da vida. Mas não posso.

Escolhi, como um louco suicida e masoquista, sofrer de amor. Correspondido, sim. Consumado, não. Por um capricho meu... Que não sei explicar muito bem.

Não há razão na presença ou na ausência do amor."

- do livro Crônicas de Coisas Comuns

23 abril, 2014

Palavras

Achei que tivesse esquecido como escrever.

O passar dos dias, tão iguais, me endureceu para as palavras.

Vejo-as distantes, como um vislumbre dos brilhos e fulgores que adornam o céu após o entardecer. Mundos antigos, com suas próprias histórias contidas em pouquíssimos sons.

Tão gastas e usadas, tão carentes de um foco e precisão, que acabam por tornar-se únicas.

Não foram as minhas palavras que se esvaíram. Mas as filhas da poesia. As notas com as quais eu ousava compor poucos e estimados sonhos. As lágrimas e dores tecidas em poucas cartas de amor. Quem dera tê-las escrito mais, ou com a paixão com as que deveria tê-las encharcado. Quem dera tê-las amado plenamente.

Foram as cores com as quais pintei retratos de sonhos. Paisagens oníricas de uma mente vivaz e desprendida das amarras de um mundo crível. Meu sonhar abstrato era tão doce e caótico o quanto algo proibido deveria ser. Ainda assim, nenhum deles tivera um fim. Quem dera tê-los finalizado, como quem termina uma lenda épica enfeitada com epígrafes e nostalgia.

Foi a música que nunca soube tocar, e as cordas de uma realidade que a mim soava tão musical quanto a mais bela e imperfeita sinfonia. Quem dera ter ouvido mais. Ter bailado sob os significados e neologismos tão próprios e profundos, que poucas delas soariam reais fora do meu contexto pessoal. Fora de mim.

Quem dera ter publicado um ou dois ou todos os livros. De poesia e contos, de crônicas e delírios. Livros com espaços vazios entre as ideias, eras e outras banalidades. Livros sobre mundos e suas conexões, sobre esquinas. Tomos intermináveis, poesias de poucas linhas, agradecimentos e notas explicativas, cada qual uma obra por si só.


Queria ainda ter o que dizer.

11 fevereiro, 2014

Frase da Semana


"Amei a mesma mulher por 50 anos da minha vida...
Queria ter dito isso pra ela."

- Autor desconhecido.

Conto - Anabela e a Bruxa



- O que eu devo fazer quando alguém que eu amo estiver sofrendo? - perguntou Anabela.

- Você deve ficar ao lado dela e confortar essa pessoa - respondeu a bruxa.

- Mas e se o motivo do sofrimento dessa pessoa for a minha presença? - desesperou-se Ana.

A velha senhora a encarou em silêncio. Admirou-se com a maturidade da dor vivenciada por um coração tão novo.

Pensou na injustiça de um mundo que relega o sofrimento daqueles que queremos bem, ao nosso simples existir. Nas crueldades do amor e na culpa entrelaçada pelo fantasma da solidão. Pensou nos rastros desastrosos que meros sorrisos podem causar, e na amargura que se destila das lembranças doces dos amores interrompidos.

Olhou para Anabela e pousou uma das mãos com suavidade em sua cabeça. O olhar distante, atravessando séculos, até seus tempos de menina. Viu-se refletida na inocência que um dia tivera em si, e que ha muito murchara como uma flor que deixou de ser regada.

Lá no fundo, em seu coração ressecado e frio, vivenciou a tênue e breve felicidade de um dia ter amado.

- Então, meu anjo, você deve se afastar para não causar essa dor. E deverá apenas orar, às cegas e em silencio, para que o sofrimento de quem você ama seja fugaz. Pois assim, Ana, é o amor. E dentre suas inúmeras qualidades, o amor é injusto e genioso. E seu poder deve ser respeitado.

- Anabela e o Mundo, pg. 27