Seções

29 janeiro, 2015

Sala de Areia



É estranho, sabe? A sensação de estar inerte num mundo sonolento e parado no tempo. Enquanto a chuva cai lá fora repleta de coisas e pessoas e começos e fins de histórias.

Uma única semana de parcial inaptidão para estar lá fora, e parece que o lado de dentro se debate em um espinheiro. Novidades se engavinham como cortes, apertando a mobilidade com a dor pungente de estar preso. É possível ouvir a terra se arrastando quando se está fixo num ponto impossível.

E enquanto não me recupero totalmente, seja da apatia auto-imposta pela condição ilusória, seja pela indisposição fisiológica para me manifestar lá fora, continuo com meus salões se enchendo de areia. Das novidades que se esfarelam em poeira, das ampulhetas vazando seus planos e oportunidades.

O tédio não me torna o que não sou.

11 janeiro, 2015

Pensamento


- Como se chama aquela sensação de sentir uma saudade angustiante de algo que não existe?
- Estar vivo.

18 dezembro, 2014

Frase da Semana

"Queria que Deus estivesse vivo pra ver isso!"
- Homer Simpsons

07 dezembro, 2014

Pense


Nosso fim é possuir a força. A palavra direito é uma ideia abstrata que nada significa. Significa simplesmente isso: "Dai-me o que eu quero, afim de que eu possa provar que sou mais forte que vós".

- Os Protocolos dos Sábios de Sião

21 novembro, 2014

Perguntas

- Quando foi a última vez em que você aprendeu algo novo? - perguntou Anabela à tia.
- Todo dia eu aprendo algo, Ana. Um prato novo na revista de receitas, uma notícia no jornal, uma fofoca da vizinha. Por que?
- Não, tia! Algo novo, novo. Uma coisa nova... Quando foi a última vez em que você jogou fora alguma coisa velha de você mesma e trocou por algo novo?
- Ah, esse tipo de coisa... Não sei. Não faço ideia. E não me pergunte esse tipo de coisa, faz com que eu me sinta burra - enrispideceu a tia.
- Mas isso é ruim? Sentir-se burra... Achei que isso fazia ficar incomodada com as coisas e jogar as certezas fora. Aprender coisas novas, tia. Saber que a senhora é burra vai te ajudar a ficar mais inteligente.
- Fique quieta, Ana! Ou eu mesmo te dou umas cintadas! Isso é modo de falar com alguém mais velho?

Anabela recuou. Os olhos arregalados. A boca trêmula. Não queria apanhar e não entendia o porquê de tamanha aversão às suas perguntas. Aprender era algo bom, ninguém seria burro se largasse a burrice pra trás e abraçasse novas ideias.
Naquele momento Ana aprendera.
Deixou para trás a ingenuidade das perguntas curiosas e as substituiu pela necessidade da dissimulação velada. Entendeu que não eram as suas perguntas que machucavam as pessoas, mas sim as respostas delas mesmas que as feriam.
E então, ficou em silêncio.
- Anabela e o Mundo

11 outubro, 2014

Frase da Semana

"Não importa o quão divertida ou inocente seja a brincadeira. Alguém sempre vai levar a sério o que não deveria."
- Anônimo

07 outubro, 2014

MEUS VINTE CENTAVOS SOBRE AS ELEIÇÕES

"Discute-se a democracia com o mesmo temor velado com o qual falava-se de religião."

A democracia no Brasil ainda não deu certo.

O que mais me fascina no processo eleitoral brasileiro é o fato de que os eleitores militam na internet, em ambos os extremos do picadeiro político, alegando motivos para não votar nos candidatos opositores aos seus. Sem darem-se conta de que isso jamais vai influenciar alguém com uma posição pré-formulada e contrária a mudar de opinião.

Chovem ofensas à PTralhas e tucanos, à coxinhas e analfabetos, à maconheiros e gayzistas, à crentes e neoliberais, à comunas e burgueses, sem efeito prático absolutamente nenhum. Exceto, talvez, o de empestear as redes sociais com uma espécie de ufanismo e ativismo tão vazio, que após algumas semanas evapora e volta a chover sob a forma de resultados do brasileirão, comentários sobre novela, vídeos de gatinhos e outras manifestações politizadas.

O que muitos não entendem, é que xingar o candidato da oposição e listar uma centena de motivos para não votar nele não vai mudar em NADA as opiniões das pessoas que leem estes textos, não importa o quão convincentes e/ou factíveis eles são. E isso se dá por 4 motivos muito peculiares:

1- O TÍPICO "FACEBOOKER" NÃO SABE O QUE FALA

Sim, por mais duro que seja constatar isso (e fazer parte disso, na grande maioria das vezes), a verdade é que os usuários ativos de redes sociais muitas vezes possuem um nível de instrução incompatível com a visão que possuem de si mesmos. Isso não quer dizer que sejam sempre ignorantes ou pouco instruídos, mas sim que, em sua maioria, flutuam sobre uma margem extremamente rasa de informações às quais se apegam para construir seu repertório político.

Vejo diariamente dezenas de pessoas em meu mural compartilhando vídeos, listas, infográficos e reportagens cujas fontes muitas vezes não possuem o mínimo de credibilidade (reflexo direto da banalização da autoridade informativa e, a grosso modo, da deterioração da qualidade jornalística do país). E, posteriormente, pautando seus argumentos com base nas "verdades" seletas que lhes são convenientes, sem pesar a qualidade da informação.

O típico usuário de mídia social é um intelectual fajuto, que nunca leu nada de fora de sua alçada profissional, mas após 3 ou 4 artigos de blogs (de blogueiros tão rasos quanto) age como entendido de assuntos polêmicos e complexos. E, para piorar, faz questão de perpetuar tal postura ao compartilhar suas opiniões fundamentadas em pseudo-ciências.

(Algo que, inconvenientemente, pode servir como uma carapuça para minha própria pessoa ao escrever sobre todos estes tópicos. Mesmo com todos os meus esforços pessoais de me informar antes de redigi-los e de tentar manter a coerência deles).

2- O BRASILEIRO NÃO SABE VOTAR

Quando foi a última vez em que você leu com detalhes todas as propostas de leis ou planos de governo dos candidatos em quem votou? E quando foi que procurou se informar sobre os crimes, condenações e acusações deles? E sobre suas obras e benfeitorias?

Podemos ir mais além, e é aí que entra o ponto crucial de um sistema democrático de eleição de representantes: quando foi a última vez em que você comparou as propostas, acusações e benfeitorias de outros candidatos em relação ao seu preferido? Quando, de fato, pesou as opções que tem disponível, sem pautar-se no favoritismo passional por partidos e/ou figuras carismáticas que aparecem na televisão?

Defender e votar às cegas em alguém que você elegeu como preferido é muito fácil. Mas sair da zona de conforto de apoiar uma legenda partidária apenas por simpatia, ao deparar-se com os podres inerentes à ela, é dar sentido ao verdadeiro poder da democracia. Votar consciente é saber em quem e no que se está votando, e também o porquê de estar votando naquela opção.

Se você é incapaz de criticar seu próprio partido/candidato preferido e/ou até mesmo mudar de opção devido a uma análise racional de panorama político, então você está votando errado. O voto não deve ser apenas uma manifestação sentimental de preferências idealistas, ele deve ser uma ferramenta cívica de promoção de mudanças racionais. Ele tem que ser útil e prático, ou jamais terá clareza.

Não se deve votar no candidato que você mais gosta. Mas sim naquele que faz mais sentido. E para isso é preciso analisar friamente cada uma das opções, compará-las e, se necessário, mudar de opinião.

3- OS ARGUMENTOS POLÍTICOS SÃO INEFICIENTES

Um dos contrapontos mais delicados dentro da discussão política num meio democrático impessoal, como a internet, é a prevalência da retórica em detrimento da dialética. Tenta-se convencer e subjugar ao invés de somar conhecimentos e discorrer sobre um assunto.

A grande maioria dos militantes de Facebook, com suas ações absolutamente ineficientes (torno a reafirmar), limita-se a espernear em seu próprio mural berrando suas intenções de votos abertamente e ofendendo os candidatos concorrentes.

Ora, basta pensar (e eu digo "pensar" no sentido mais puro da palavra) um pouco para perceber que o único resultado prático disso é incomodar outras pessoas, mesmo as que possuem o mesmo ideal político.

Como apontado anteriormente, o brasileiro vota com o coração (ou muitas vezes com o reto) e não com o cérebro. E isso faz dele um apaixonado por seus candidatos, por suas causas, pelas cores do partido, pelo jingle da campanha... Por tudo o que não importa em definitivo. E vocês sabem o que dizem sobre falar mal das paixões alheias...

Esta é a retórica vazia das mídias sociais. Não há vencedor pelo simples fato de que não há o que vencer. Só há gritaria. Nenhum ser humano dotado de plenas faculdades mentais mudaria suas opiniões, tão bem formuladas com informações de blogs vagabundos, simplesmente porque alguém vomitou argumentos contrários à elas em sua cara. Ainda mais se este for um apaixonado por tais opiniões, sem nem entender o que elas significam.

O ideal seria que houvesse uma soma. Um diálogo, como o próprio termo diz. Onde cada indivíduo tivesse a abertura intelectual para ouvir os argumentos opostos à realidade em que acredita e pudesse assimilar de modo eficaz tais dados. Com a finalidade de poder conjecturar uma mudança racional de opinião ou não.

Então, lamento lhes dizer, mas infelizmente aqueles 2546 motivos para não votar em Fulano não funcionam para influenciar o voto de ninguém. E não adianta nada depois dizer coisas como "Não acredito como alguém esclarecido é capaz de votar em Beltrano", pois, na cabeça dos demais, eles pensam exatamente a mesma coisa que você.

Olha só quanta gente esclarecida...

4- AS ELEIÇÕES NO PAÍS SÃO OBRIGATÓRIAS

Por fim, chegamos ao motivo final (mas não menos importante): todos nós só fazemos esse papel patético porque, a grosso modo, somos obrigados a fazê-lo.

Não, não estou tentando eximir ninguém da culpa de ser ignorante, ou de se apaixonar pelo candidato/partido, ou pela falta de cultura e educação do sistema básico de ensino do país. Só estou dizendo que a obrigatoriedade do voto é um problema e tanto. E é fácil entender os motivos.

Você é obrigado, de 2 em 2 anos, a sair de sua casa em um domingo de manhã para ir até um colégio eleitoral, entupido de outras pessoas com a mesma disposição enfadonha que você, para esperar por horas em pé em uma fila e finalmente poder digitar algumas sequências de números em uma caixinha de música que mais parece um telefone com tela rodando MS DOS. O telefone faz barulhinho, você fica satisfeito, a tela indica FIM e você volta para casa. Vai passar o resto do dia berrando no Facebook e torcendo com a televisão ligada para que seu candidato do coração ganhe no primeiro turno. Se ele ganhar você pode ir para a avenida principal de sua cidade, ficar mais duas horas preso no trânsito, ouvindo o mesmo jingle que ouviu a campanha inteira, e buzinas... muitas buzinas.

Que lindo imbecil você é. Você jogou um dia de folga previsto por lei para executar um dever cívico (que deveria ser um direito), apertando botões em uma caixinha 100% passível de fraude, para fazer um favor à um estranho que nunca verá pessoalmente na vida, para que ele ganhe R$ 78.000,00 mensais (verba de gabinete de um deputado federal) e compareça no trabalho apenas algumas míseras vezes por semana. Ah, e para que ele se limite a assistir outras pessoas a discutir assuntos que não dizem o menor respeito à você.

Em suma, o candidato que você foi obrigado a eleger não te representa. Ele nem sequer sabe que você existe e você provavelmente não leu nada do que ele propôs em seu plano de candidatura. Além do que, dificilmente ele irá cumprir o que prometeu. Então por que você teve que ir lá, naquele maldito domingo, fazer o favor de dar todas essas regalias pra ele?

Se o voto não fosse obrigatório, palhaço, ex-BBB ou jogador de futebol nenhum teria o poder de tirar você de sua casa para votar, se não o quisesse. Você provavelmente só sairia de casa por um bom motivo. Só pegaria filas em um domingo de manhã por uma esperança racional de mudanças para melhor, por uma defesa coerente dos interesses que te representam.

Mas você não tem escolha, tem? Vivemos no Brasil e você tem orgulho de ser brasileiro.

Vai ser obrigado a escolher e votar em um candidato do coração. Vai se informar sobre os podres dos concorrentes no Twitter e nos blogs. Vai falar mal de PTralhas e tucanos nas redes sociais, sem convencer ninguém, sem sequer ser ouvido.

E assim as coisas continuarão sem dar certo. Por mais 2, 4, 6 e 50 anos.

Viva a democracia!