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23 abril, 2014

Palavras

Achei que tivesse esquecido como escrever.

O passar dos dias, tão iguais, me endureceu para as palavras.

Vejo-as distantes, como um vislumbre dos brilhos e fulgores que adornam o céu após o entardecer. Mundos antigos, com suas próprias histórias contidas em pouquíssimos sons.

Tão gastas e usadas, tão carentes de um foco e precisão, que acabam por tornar-se únicas.

Não foram as minhas palavras que se esvaíram. Mas as filhas da poesia. As notas com as quais eu ousava compor poucos e estimados sonhos. As lágrimas e dores tecidas em poucas cartas de amor. Quem dera tê-las escrito mais, ou com a paixão com as que deveria tê-las encharcado. Quem dera tê-las amado plenamente.

Foram as cores com as quais pintei retratos de sonhos. Paisagens oníricas de uma mente vivaz e desprendida das amarras de um mundo crível. Meu sonhar abstrato era tão doce e caótico o quanto algo proibido deveria ser. Ainda assim, nenhum deles tivera um fim. Quem dera tê-los finalizado, como quem termina uma lenda épica enfeitada com epígrafes e nostalgia.

Foi a música que nunca soube tocar, e as cordas de uma realidade que a mim soava tão musical quanto a mais bela e imperfeita sinfonia. Quem dera ter ouvido mais. Ter bailado sob os significados e neologismos tão próprios e profundos, que poucas delas soariam reais fora do meu contexto pessoal. Fora de mim.

Quem dera ter publicado um ou dois ou todos os livros. De poesia e contos, de crônicas e delírios. Livros com espaços vazios entre as ideias, eras e outras banalidades. Livros sobre mundos e suas conexões, sobre esquinas. Tomos intermináveis, poesias de poucas linhas, agradecimentos e notas explicativas, cada qual uma obra por si só.


Queria ainda ter o que dizer.

11 fevereiro, 2014

Frase da Semana


"Amei a mesma mulher por 50 anos da minha vida...
Queria ter dito isso pra ela."

- Autor desconhecido.

Conto - Anabela e a Bruxa



- O que eu devo fazer quando alguém que eu amo estiver sofrendo? - perguntou Anabela.

- Você deve ficar ao lado dela e confortar essa pessoa - respondeu a bruxa.

- Mas e se o motivo do sofrimento dessa pessoa for a minha presença? - desesperou-se Ana.

A velha senhora a encarou em silêncio. Admirou-se com a maturidade da dor vivenciada por um coração tão novo.

Pensou na injustiça de um mundo que relega o sofrimento daqueles que queremos bem, ao nosso simples existir. Nas crueldades do amor e na culpa entrelaçada pelo fantasma da solidão. Pensou nos rastros desastrosos que meros sorrisos podem causar, e na amargura que se destila das lembranças doces dos amores interrompidos.

Olhou para Anabela e pousou uma das mãos com suavidade em sua cabeça. O olhar distante, atravessando séculos, até seus tempos de menina. Viu-se refletida na inocência que um dia tivera em si, e que ha muito murchara como uma flor que deixou de ser regada.

Lá no fundo, em seu coração ressecado e frio, vivenciou a tênue e breve felicidade de um dia ter amado.

- Então, meu anjo, você deve se afastar para não causar essa dor. E deverá apenas orar, às cegas e em silencio, para que o sofrimento de quem você ama seja fugaz. Pois assim, Ana, é o amor. E dentre suas inúmeras qualidades, o amor é injusto e genioso. E seu poder deve ser respeitado.

- Anabela e o Mundo, pg. 27

01 outubro, 2013

Frase da Semana

"Não há resposta no espaço vazio entre os sonhos."

24 setembro, 2013

Conto - Nove

Este é um conto de terror que originalmente iria servir de abertura para o livro A Fita, de meu amigo Diego Astaurete. No entanto, a editora responsável pelo material, a Retropunk, considerou o material extenso demais para servir como abertura, e por isso retirou-o da versão final.

Por este motivo, não há mais porquê guardar este material do público, então me resta apenas publicá-lo em algum lugar. Espero que gostem.

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Nove


            Edson praguejou. O transito caótico do rush vespertino, acentuado pelas chuvas implacáveis do final de março, fizeram com que se atrasasse mais do que o usual para o trabalho. Não que algum dia realmente fora pontual, mas desta vez perdera a hora e desencontrou-se com os colegas de trabalho que saíam do turno anterior.
            Sem um cigarro, sem uma conversa breve de quinze minutos, sem palavrões e rancores compartilhados, sentia-se um fantasma assombrando o local. Detestava iniciar o turno da noite sozinho.
            Percorreria as grandes e envelhecidas instalações das docas em uma vigília inútil. Afastando mendigos, cães e gatos de rua, que buscavam buracos e quinas escuras para seus afazeres solitários. Nenhum ladrão, nenhum contrabandista, nenhum traficante ou assassino em série. Nem mesmo putas.
            No fim das contas, Edson sentia que no fundo era pouco diferente dos trastes que espantava com fachos de lanterna, ameaças vazias e apitadas estridentes. Um homem velho e infeliz, com vícios e amargura. Decadente.
            Aquele era o seu próprio canto escuro e solitário. Detestado, familiar.
            Acendeu mais um cigarro, tragou a fumaça embalada com maresia e deixou-se divagar por um longo tempo. Pensou no mundo. Na esposa que o abandonara há quase seis anos, no filho morto em um assalto, na última briga com o pai. Nas docas.
            Esboçou um sorriso amargo. Sempre pensava nas docas. Um gigantesco cemitério de caixas, contêineres e barcos enferrujados. Desativado após a construção do novo porto da cidade e fadado a servir de entulho perene. Invisível para a prefeitura, evitado pela polícia, abandonado por empresários, esquecido por bandidos.
            “Minha casa”, pensou. Cheia de goteiras e ratos.
            Jogou a bituca displicentemente no chão, sobre uma pilha de escombros escuros. E estremeceu.
            “Presente pra você, Zé...”
            Fitou a brasa se apagar aos poucos sob a chuva fina. Marcando o local onde o último vigia noturno foi encontrado morto, três meses atrás. “Um dos oito”.
            O último a ocupar seu cargo fora encontrado morto em uma manhã de segunda-feira. Os legistas não encontraram nenhum indício de agressão, marca no corpo, fratura, lesão ou traumatismo. Sem indícios de envenenamento, sem infeções ou doenças aparentes. Sem causa mortis.
            Apenas um corpo jogado em meio aos destroços. “Um dos oito...”
            Edson seguiu com os olhos a trilha que, segundo os peritos, havia sido percorrida pelo antigo companheiro de trabalho no dia da ocorrência. Do galpão para a sala de vigilância, da sala para o pátio, do pátio para a morte.
            Descartada a hipótese de homicídio, a polícia encerrou o caso e anunciou parada cardiorrespiratória como razão do falecimento. O que se seguiu foi um velório simples, uma família enlutada e uma pequena nota em um jornal local. Nem sequer olharam as fitas das câmeras vigilância.
            “Nem sequer...”
            Edson encarou a velha câmera que filmava o pátio. Uma luz vermelha piscava incessantemente por sobre as lentes, indicando que a gravação estava ativa. Por mais que ninguém lembrasse das câmeras, elas sempre estiveram ali. Foram colocadas na década de 90, quando o porto estava no auge de sua atividade. Somente a partir da morte do quinto vigia.
            “Mas que porra.”, murmurou, intrigado.
            Entrou no galpão principal e rumou para a sala de vigilância, onde estavam os arquivos das docas. Sabia que os jornais e documentos antigos haviam se perdido em um pequeno incêndio, anos atrás; mas as fitas estavam intactas. Intocadas.
            Dentro de uma caixa no andar inferior da sala de vigilância haviam fitas e mais fitas, algumas das quais jamais vistas. Uma política de segurança dubitavelmente eficaz.
            Edson desceu com pressa a escada de mão, adentrando no subsolo escuro do depósito. As mãos e a mente em frenesi. Queria encontrar a caixa com fitas, escapar da claustrofobia escura, aliviar sua curiosidade.
            Foi quando ouviu os primeiros estalidos.
            Com um arrepio involuntário lhe percorrendo o corpo, o vigia intensificou a busca. Uma espécie de temor irracional tomou seu íntimo e logo os movimentos das mãos ficaram descoordenados. Mais estalidos.
            “Ratos dos infernos!”, praguejou, subindo a escada e carregando uma pequena caixa.
            Ao sair, deu-se conta da câmera que pendia do teto, no centro da sala de vigilância. Sabia que ela sempre esteve ali, mas nunca reparou que seu foco não era o painel do circuito de TV e telefones, mas sim a porta de entrada e o alçapão no chão, por onde acabara de sair.
            Sentou-se em uma cadeira, ofegante, e abriu a caixa. Haviam cerca de trinta fitas lá dentro, algumas datadas de duas décadas atrás, outras mais recentes. Pegou a mais antiga e colocou-a no antiquado aparelho de vídeo conectado à televisão da sala. A filmagem datava de 1999 e possuía uma anotação feita à mão em sua etiqueta dizendo 'Nivaldo Souza'.
            A gravação mostrava um velho senhor, já na casa dos setenta anos, sendo filmado dentro da mesma sala de vigilância. Edson não o conhecia, mas notou que este parecia ser um vigia, por conta do uniforme que trajava.
            “O sexto.”
            O homem aparecia sentado em uma cadeira de madeira, brincando com um surrado chapéu de palha. Sua expressão era concentrada, estranha. Quase obsessiva.
            Quando Edson acelerou a fita, viu que a gravação se estendia por horas, mas as ações do homem eram tão ritmadas e repetitivas que era quase impossível notar a passagem do tempo. Como se a própria gravação estivesse em looping. O único detalhe perceptível era uma cadência de estalos crescentes e uma pequena substância líquida que parecia gotejar do teto sobre a cabeça do homem.
            “Goteiras e ratos. Mesmo naquela época...”
            A gravação finalizava com o velho senhor saindo do transe e olhando para a televisão, intrigado com algo impossível de se ver na filmagem.
            Trocando de fita com um simples pressionar de botão, Edson começou a assistir o próximo material, intitulada como 'Augusto Nascimento'. As imagens, distorcidas pela má qualidade da câmera, mostravam um homem de pouco mais de vinte anos fumando no centro do galpão principal. Também chovia e haviam ratos, a julgar pela presença de goteiras no ambiente e de estalidos na gravação.
            Novamente a gravação se estendia por horas. Mostrando movimentos cadenciados de um homem fumando compulsivamente maço atrás de maço, até que este se surpreendia com algo, pouco antes das imagens terminarem.
            “Sete...”
            Quando a fita acabou, Edson respirou fundo para aliviar a tensão e abraçou o próprio corpo para espantar o frio. Haviam buracos e falhas no telhado e nas paredes de todo o galpão, e mesmo dentro da sala de vigilância a chuva escorria por goteiras e molhava o vigia.
            Recompôs-se e colocou a próxima fita, etiquetada com o nome do falecido colega de trabalho e assistiu outra repetição de cenas bizarras. Como nos demais vídeos, estava uma noite chuvosa e era possível ouvir o peculiar som de ratos ao fundo na gravação. O antigo guarda noturno andava em círculos incessantemente do lado de fora do pátio, próximo ao local onde fora encontrado morto.
            Na última cena, viu José sair de seu transe e olhar para a câmera de vigilância, encarando-o diretamente e fazendo os estalidos aumentarem.
            Amedrontado, Edson pressionou o botão para mudar a fita novamente e esfregou o rosto, cansado. Checou o relógio e surpreendeu-se ao perceber que havia passado quase quatro horas assistindo os materiais, ininterruptamente.
            Quando olhou para o monitor novamente, viu outro homem aparecendo na tela. Demorou para reconhecer a si mesmo.
            Apesar de movimentar-se na sala, viu que a figura aparecia estática no vídeo e que a gravação não era em tempo real. Fora filmado enquanto assistia às outras fitas.
            O homem que aparecia na tela comportava-se como um obsessivo, vidrado em um pequeno monitor e movimentando-se apenas para apertar os botões do vídeo cassete. Estava tão concentrado que não notara os estalidos crescendo à sua volta e inundando a sala com sons impossíveis de se definir.
            Edson viu, horrorizado, uma versão de si mesmo repetir incessantemente o comportamento dos outros vigias mortos, ambos filmados sem perceber. Viu-se imerso em um transe, rodeado por estalidos agudos e molhado constantemente por uma goteira.
            Até o vídeo acabar repentinamente.
            Foi quando Edson entendeu que o som que ouvira antes não era de ratos.
            E que aquilo que tanto pingava nunca foi água.

            “Nove...”

29 agosto, 2013

Azul

A cor que você enxerga desde pequeno e cresceu denominando como "azul", pode não ser o mesmo espectro da luz que os olhos de outra pessoa filtram e, igualmente, denomina com o mesmo termo e enxerga nos mesmos locais.

O mesmo céu azul que você vê, pode ser igualmente azul e celeste para outra pessoa, mas suas impressões e percepções podem ser distintas e singulares. "Azul", por si só, é um nome para denominar um conceito. Uma abstração sensorial com base em uma percepção física.

Se o seu azul, por algum motivo, for particular e único - não há como provar, até que esta afirmação seja refutada por meios científicos, que ele não o é - então o que garante que esta suas percepções sensoriais e sua estrutura lógica de raciocínio seja similar à de outros seres humanos?

E se, no lugar de uma cor, suas impressões pessoais fossem mais amplas e, ironicamente, imperceptíveis enquanto características particulares? Você seria capaz de notar uma distinção entre a sua visão de mundo e a de outrem? Você seria capaz de perceber, mesmo com "olhos de outra cor", que seus valores e convicções podem não ser universais? E que o diferente não é, necessariamente, errado.

Se uma simples cor pode levantar tantos questionamentos, reflita sobre seus julgamentos em relação à crenças políticas, religiosas, sociais e éticas. Pois, quem sabe, o seu azul não seja exatamente o mesmo azul da pessoa que está ao seu lado.


12 agosto, 2013

Cadentes

Quando eu era criança, por várias vezes me peguei olhando para o céu noturno. Eu ouvia histórias de alienígenas, estrelas cadentes e planetas imensos, e ficava imaginando se tudo aquilo era verdade. O universo parecia tão distante e incrível, que não podia simplesmente ser real.

Ele estava ali, sabe? Logo ali. Em cima e ao redor, e era infinito. Como podia ser TUDO e ao mesmo tempo não ser nada para nós? Não fazia sentido não ter provas de todas as histórias. Como podia o infinito não dar sinais de existência? Estar tão belamente perto e impossivelmente distante?

O menino olhava para o céu de um modo mais profundo que o adulto agora olha. Ele sentia a real expressão do infinito. A melancolia de estar sozinho.

E até hoje, nenhum de nós, jovem ou não mais tão jovem, jamais viu planetas imensos, alienígenas e estrelas cadentes.