Seções

20 maio, 2008

Conto: Edgar

Edgar suspirou profundamente. Ao longe, o pôr-do-sol jazia esplêndido, irradiando uma claridade laranja rajada, colorindo em listras irregulares o profundo céu anil de outono. A brisa, cálida e silenciosa como o afago de uma nereida, permeava o ar com aromas familiares, fazendo vir à tona lembranças de um passado distante e plácido. Uma época dourada donde os céus eram mais azuis e a relva mais macia; uma infância alegre; uma paixão adolescente; os pais que os anos roubaram; tempos de paz. Uma sensação de nostalgia e saudade, profunda como o mais fundo dos mares, de súbito preencheu seu coração calejado pela vida. Por mais que a era em que vivesse fosse repleta de dificuldades, o experiente anão jamais se sentiria desconsolado por problemas tão pequenos.

– Grande de verdade é a força que molda o mundo! – como costumava dizer sua mãe. – O amor meu filho! O amor pela vida e por tudo que há nela!

Edgar sorriu. Lembrar-se de sua mãe em geral lhe trazia uma pontada aguda no peito, mas agora, por algum motivo que não soube explicar, o carinhoso rosto materno embaçado em suas memórias o fez sentir-se forte. Como se uma paz quase divina preenche-se sua alma por completo. “O amor por todas as coisas...” murmurou, sentindo o vento suave acariciar seus cabelos e sua longa barba.

Foi quando, por um ínfimo segundo em meio à confusão que lhe atormentava nos últimos anos, tivesse acordado para uma verdade muito maior do que àquela que lhe era visível. E ali sozinho, lembrando-se de seus pais; lamentando não ter aproveitado o passado glorioso de uma felicidade ingênua, que nunca mais retornaria; chorando, gritando, sorrindo e cantando por dentro; sempre em silêncio; Edgar entendeu o quão simples era o mundo, o quão frágeis eram os homens, e o quanto era difícil amar. Mas ainda assim, o anão que fora marcado pelo tempo tal qual uma rocha é esculpida pelas ondas, sentiu algo inflar em seu eu, apagando os vestígios de seu ego. De seus medos e suas limitações.

Edgar finalmente entendeu o que era o amor.

Então, mesmo sem notar, seus olhos lacrimejaram. Não via um espetáculo tão belo em séculos. Talvez, pensou por um instante, jamais tivesse visto algo assim. Ao menos nunca daquela forma.

Não com os olhos de Deus.

3 comentários:

  1. foi um sonho amor?

    ResponderExcluir
  2. essa pergunta é para o outro texto... desconsidera...

    ResponderExcluir
  3. Edgar é lindo. É impressionante como vc consegue nos fazer navegar na intensidade dos sentimentos que suas palavras traduzem. Você é lindo meu filho, muito mais do que isso, pois em sua essência, posso vê-lo com os olhos de Deus. Te amo muito, mãe jÔ.

    ResponderExcluir

O Astronauta das Marés agradece profundamente pelos comentários de seus leitores. Cada interação do público com o blog me motiva, ainda mais, a postar novidades e escrever textos de qualidade. Obrigado pela força galera.

Ah, e comentários que iniciem discussões serão levados adiante, caso o assunto seja de relevância.