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18 março, 2008

Conto: Corações Roubados

- Muito bem senhores. Acredito que isso é tudo, por hoje! – desdenhou o jovem cigano com um sorriso maroto no rosto. – Se quiserem ter o prazer de jogar cartas comigo novamente estarei aqui amanhã, durante a noite. – Exclamou de modo calculado, para não criar revolta em nenhum dos presentes, muitos dos quais (agora) sem dinheiro; e assim garantir o ímpeto de revanche nos derrotados ao seu redor.

Miguel sabia que era assim que as coisas funcionavam. Arrancava-se tudo, mas deixava-se a esperança. Não apenas nos jogos, mas em todas as circunstâncias da vida de um modo geral; ao menos na dele. Essa era a política do “Dito e Feito”, um modo inteligente de levar os outros a fazerem o que se almeja, sem que estes sequer saibam que estão sendo manipulados. E novamente, graças à lábia do esperto apostador, funcionara tão bem quanto o esperado.

A noite havia sido proveitosa. Uma dúzia, ou mais, de nobres arrogantes e tolos, tentando se passar por exímios apostadores e estrategistas, caíram no tradicional erro de desafiar o “pobre” trapaceiro que se fazia de iniciante. Ficaram à mercê das condições alheias; fato que rendera uma quantia respeitável de dinheiro para o cigano.

Este que agora se prostrava em pé, retirando-se de modo ironicamente cortês da mesa de jogos. Se despedindo com o máximo de discrição. Miguel havia ganhado a noite, e eram inúmeros os motivos para se comemorar: sonhos de grandeza, sucesso, liberdade plena.

No dia seguinte teria de se submeter ao trabalho árduo e irracional que sua servidão lhe rogava, suportando insultos e humilhações provindas de um senhorio indolente e estúpido. Acordando de uma ilusão festiva, e deparando-se com a realidade sólida de condenado. Até lá, sonharia o quando pudesse...

Foi quando a porta da taverna se abriu em um rangido incômodo. E de seu arco velho surgiu uma figura estranhamente familiar. Um homem (ou o que ao menos todos os presentes julgaram ser um) encapuzado, robusto e alto, atravessou o hall de entrada em passos largos e ritmados, e postou-se do outro lado da mesa onde ocorreram os jogos. Frente a frente com Miguel. Ignorando os demais derrotados do local.

Foi quando, segundos após sua entrada, falou em alto e bom tom: - Aposte toda a riqueza que acumulou aqui nesta noite, e mais toda a que surrupiou secretamente dos bolsos dos fracassados no recinto... E quem sabe, se arrisque a conquistar um ano de alívio para seu coração prisioneiro! – a comoção geral foi abafada por um silêncio tenso, embora um ou outro nobre tenha revistado seus bolsos.

Miguel tremeu por dentro. Sentiu que a noite havia lhe reservado uma surpresa ainda maior. Mesmo que o estranho tivesse apostado um único dia de seu coração prisioneiro, o jovem cigano teria a convicção de que poderia apostar até cem vezes o ouro que acumulara. Mesmo que perdesse, arriscar já valeria a pena.

E caindo no mesmo truque que utilizara contra inúmeras pessoas ao longo de sua vida, viu-se envolvido com uma aposta que não podia negar. Se deixando manipular pela política do “Dito e Feito”. Ficando à mercê das condições alheias.

Afinal, tudo tinha seu preço. E Miguel era um apostador...

Um comentário:

  1. Realmente big brother peca em muitos aspectos(para uns n eh um programa que se possa aproveitar nada),entretanto big brother ja � visto como uma novela,onde o telespectador acompanha cada capitulo,torce para o mocinho e se revolta com o vil�o,e espera ansiosamente pelo beijo apaixonado e uma linda est�ria de amor.aonde se passa um fato em que todas as pessoas encenam um papel...

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